Ronei Machado
A frase, que como quase tudo em inglês, virou acrônimo (TANSTAAFL - There Ain't No Such Thing As A Free Lunch), foi popularizada pelo economista Milton Friedman, já tendo sido exaustivamente revirada e dissecada em todo o seu significado. Chris Anderson, editor da revista Wired, oferece agora uma análise alternativa, para dizer o mínimo.
Em março de 2008 Anderson publicou na Wired um artigo entitulado Free: Why $0.00 is the future of Business, causando, como sempre, muita polêmica e proporcional interesse. O artigo era o embrião do livro que seria publicado em julho de 2009 sob o título Free: The Future of a Radical Price (Free: O Futuro de um Preço Radical). O livro deve chegar ao Brasil nas próximas semanas.
O que há de tão radical? A tese de Anderson é que existem, sim, produtos e serviços oferecidos gratuitamente, não apenas como brindes ou chamarizes, mas como unidades completas e auto-suficientes. E que esta não é uma tendência, mas uma mudança definitiva no modelo econômico. Para exemplificar, ele começa seu livro dizendo que escreveu-o utilizando Google Docs, Firefox e Linux, além de utilizar uma conexão wireless no Starbucks. Tudo de graça. Menos o netbook, que custou US$ 250,00...
Vale ressaltar que Anderson não faz a apologia do ‘’tudo de graça”, mas sim do movimento irreversível de se oferecer produtos gratuitos para buscar faturamento em áreas correlatas. No mundo digital, a teoria é facilmente comprovada. Os custos dos alicerces da tecnologia da informação – armazenamento, processamento e banda – têm caído a tal ponto que, em larga escala, tendem a zero. Vejamos. Em 1961, um transistor custava ÚS$ 10,00 dólares. Em 1963, US$ 5,00. Em 1968, US$ 1,00. Hoje, a Intel produz um processador com 2 bilhões de transistores a um custo de US$ 300,00, o que traz o preço do transistor para desprezíveis US$ 0,000015.
Google (Gmail, Earth, Maps, Docs etc), Yahoo, Wikipedia, YouTube, Skype, Facebook são apenas alguns exemplos óbvios de “almoço grátis”. Tão óbvios que acabamos esquecendo que são gratuitos e nem cogitamos pagar por serviços similares. Já o celular que você recebe “de graça” da operadora não tem nada de realmente gratuito, pois vem amarrado a um plano de fidelização que o subsidia. São os chamados subsídios cruzados.
Para embasar seu argumento, Anderson sai do reino digital e extrapola o conceito para diversas áreas, com modelos de negócios para outros produtos que poderiam ser gratuitos, tais como passagens aéreas, CDs de música, livros e até carros. A Ryanair, por exemplo, empresa aérea irlandesa, oferece passagens de Londres para Barcelona por US$ 20,00. Para conseguir chegar a este preço, ela cobra pela água, bagagem despachada, embarque prioritário e outros confortos.
Recentemente a companhia cogitou cobrar até mesmo pelo uso do banheiro. E se conseguir transformar seus aviões em cassinos, como vem tentando, poderá oferecer a passagem a custo zero.
Anderson reserva um capítulo inteiro (“Free World”) apenas para ilustrar sua teoria com casos no Brasil e na China. Cita a banda Calypso, por exemplo, que faz da pirataria seu principal veículo de marketing, faturando com shows e não com CDs.
Há também uma análise interessante sobre o conceito de freemium (free + premium), já adotado por algumas empresas como Skype, Flickr e The Wall Street Journal. Neste caso, existe uma versão reduzida – mas totalmente funcional – do produto ou serviço, e outra mais completa, porém paga. Os usuários do serviço premium subsidiam os usuários que não pagam.
Mas nada é tão simples. O autor Malcolm Gladwell ataca fortemente as idéias de Anderson em um artigo no The New Yorker. Argumenta que não há nada de realmente novo e lembra que o modelo de “grátis” subsidiado pela publicidade já existe a décadas. O YouTube deve perder quase meio bilhão de dólares em 2009, de acordo com o Credit Suisse. O site que se tornou uma febre na divulgação gratuita de vídeos, com estimativa de 75 bilhões de acesso somente este ano, ainda não encontrou um modelo de subsídio cruzado que garanta o retorno do investimento ou mesmo o equilíbrio de contas.
As possibilidades são inúmeras, a polêmica é enriquecedora e a discussão está apenas começando. Mas é certo que o almoço grátis de hoje já é mais plausível que o do passado. E é ainda mais certo que as empresas deverão estudar e entender este modelo de negócios para ver onde e como serão impactadas. Já pensou no que você vai oferecer de graça a seus clientes?
Em tempo. “Free” não chegará de graça no Brasil. Deverá ser vendido por R$ 59,90. Mas você pode encontrar versões digitais gratuitas na Web (por enquanto, só em inglês). Basta procurar no Google. |